Transcrição do episódio #05: “O que nós fizemos ?”

Feio“.

Um dos temas mais desestruturados, improváveis, desconexos da extensa carreira de Miles Davis. E para chegar não faltou a coragem de atravessar uma improvável sequência de momentos musicais de sua vida.

Miles Davis já tinha conhecido o bebop de primeira mão com Charlie Parker. No começo de sua carreira tocou com o quinteto do Bird, fazendo apresentações primeiro nos famosos bares de jazz de New York depois em zig zags malucos ao redor do país, e mais tarde percorrendo Europa show atrás de show.

As crônicas narram altas festas e longas sessões de heroína (que na época do quinteto todos os integrantes usavam), mas quem vê a sequência de datas das gravações não imagina como faziam com essa rotina puxada de gravações, vivos, ensaios. Provavelmente deixavam para dormir para outra vida.

Até parece impossível dizer isto, mas após a fase com o Charlie Parker Quintet, antes dos anos 50, Miles tenta carreira solo e começa a montar sua própria banda. Já? Mas como?

Miles foi um menino que nasceu para a música. Embora fosse de uma família de classe média onde não havia músicos profissionais, sua mãe era professora de música, que gostava de piano, mas Miles ganhou seu primeiro trompete aos 13 anos e já tocava nas pequenas bandas na East St Louis , Illinois, dos anos 30. A educação de seus pais lhe dizia que devia estudar na famosa Julliard School.

Mas o espírito rebelde o levou até encontrar a melhor educação boêmia nos bares onde as bandas famosas tocavam. E tão precoce era Miles que passou a tocar ainda jovem junto aos grandes como Charlie Parker, o Bird e depois Coleman Hawkins, e antes dos 25 anos já tinha sua própria banda.

Assim como a banda floresce (e John Coltrane está nessa banda), o uso da heroína os faz ter improvisos erráticos, e falhas em marcar as apresentações.

Miles escondia dores nas suas cordas vocais e seja para apagar a dor, seja para aumentá-la depois, a heroína foi aquela companheira que vai destruí-lo lentamente entre momentos de adicção forte e outros de abstinência. Mas consciente de poder ser muito mais, renasce em ’55 numa brutal performance em Newport junto ao grande Thelonious Monk tocando um de seus clássicos: ‘Round Midnight.

Brilha novamente, toca suas melhores melodias com John Coltrane, o jovem virtuoso que ele ajuda assim como foi ajudado ele mesmo pelo Bird.

Tempo depois desfaz o quinteto e inova novamente trazendo um condutor que o ajuda a revolucionar seu jeito de interpretar: Gil Evans, que ele conhecia do começo de sua carreira. Nos primeiros anos Miles tinha estudado música de orquestra e eles dois tinham essa preferência, além dos dois serem apaixonados pela sonoridade dos compositores espanhóis como Joaquín Rodrigo, autor do famoso Concierto de Aranjuez.

Miles encontrou seu tom com Gil Evans, misturando com perfeição a música de orquestra com o mais fino da improvisação jazzística. Coltrane se atirava em solos rápidos e virtuosos de um jeito que só um gênio como ele poderia fazer. Miles sabia que não poderia seguir esse caminho, então criava ambientes e jogava o ouvinte neles. Seu trompete preenchia os vazios com tons inusitados, às vezes calmos como o mar, às vezes tensos de um detetive descobrindo um mistério proibido.

Já esta fase mostra a predileção de Miles pelas bordas do jazz, ao encontro de sonoridades e preferências musicais que vão além não só do bebop.

Kind of Blue é filho desta época e é para muitos o ápice de Miles Davis. Porém sua incansável criatividade traria ainda mais surpresas.

Coltrane já tinha construído seu brilhante Giant Steps. Outros compositores estavam navegando entre o free jazz, os standards ou recheando as tardes da TV com algo mais light e compreensível para o homem branco de classe média que se supunha estava do outro lado do aparelho. Porém uma moda ia deixar todos eles em segundo plano. E, além de geniais, estes músicos não gostavam de ficar em segundo plano. Era uma moda que ganhou uns nomes estranhos e depois todo o mundo chamou de …rock.

Um ritmo idiota, uma merda de uma música de quatro compassos, tocada por músicos que mal sabiam segurar seus instrumentos. E as meninas deliravam. E era contagiante. E os caras aplaudiam que nem imbecis. E a febre estava só começando. Era a banalização de tudo que a música moderna podia oferecer, eram músicas fáceis, letras de namoro ou de carros, vulgares como um chiclete na calçada, barulhentas.

O rock deixou perplexo o jazz, que ficou limitado às festas caretas dos brancos encurralados que odiavam essa moda desordenada. Paradoxalmente, o rock bebia diretamente da mesma fonte do jazz, do swing, dos guetos das cidades, do ritmo acalorado dos elevadores, da necessidade dos jovens de fugir desesperados de uma necessidade imperiosa de produzir numa era de consumismo ditada por uma geração repressora e filha das guerras.

Mas Miles estava preso no espiral criativo que a heroína lhe permitia: quando a depressão o pegava desprevenido, os anos se passavam sem ele perceber nos braços de sua noiva mortal.

E os anos se passaram.

O rock agora estava enchendo os bolsos das gravadoras, e as gravadoras enchendo os jovens músicos de aparelhos, instrumentos, estúdios, giras, tours, LSD, e o rock saiu do seu claustro de música de vagabundos, ganhou as ruas, ganhou criatividade, e também conseguiu ganhar uma diversidade na composição que deixou a turma do jazz perplexa.

O rock ficou famosinho, complexo, casou com a política, se engajou na militância contra a guerra que mandava seus filhos a uma Kali sempre faminta de sacrifícios humanos, flertou inclusive com todos os povos e todas as origens.

Muitos compositores e músicos da velha guarda torceram o nariz para essa novidade de música que falava de amor fácil e sentimentos fúteis. Mas não Miles. Sua necessidade de novas experiências o fez compreender que era ele que deveria mostrar o rumo.

Em 69 os malvados eram os russos soviéticos e os EUA estavam envolvidos em vencer a corrida espacial e chegar até a Lua.

E Miles Davis estava germinando um renascer do jazz.

Em fevereiro de 1969, já com algumas composições vagas em mente e muitos músicos para ajudá-lo, Miles começa uma nova gravação, que seria chamada de “In a Silent Way“. Foi gravado em uma sessão, e eram dois temas: “Shh peaceful” e “In a silent way“. Assim como o rock progressivo , os temas dessa época são em geral longos. Estavam se desvencilhando da ditadura da canção que impunha até 5 minutos para poder tocar nas rádios e ser popular nos bailinhos. Mas estes intérpretes estavam percebendo que havia um enorme espaço por álbuns conceituais e longos a serem apreciados por um público que agora tinha tempo e disposição por ouvir música, desfrutar do encarte, curtir um som, algo que não acontecia desde a música de orquestra.

Mas “Silent Way” era como uma planície calma desde onde Miles enxergava uma montanha enorme de jazz fusion.

Continuaram tocando Silent Way junto com outras músicas do antigo repertório de Miles, com algumas novas músicas do Zawinul como “Directions”. E começaram a surgir músicas novas. A primeira foi “Sanctuary“.

E onde está a melodia em “Sanctuary” ? Onde está a frase que vai nortear os improvisos ? Todos os instrumentos tem um momento de destaque mas não são necessários solos virtuosos e longos e sim momentos de reflexão onde o ambiente é o importante. Onde estão os tons para encontrar a estrutura principal ? Ao invés disto temos um ambiente tenso, uma melodia que parece circular ao nosso redor. Miles nos mostra seu santuário de ídolos antigos, répteis lovecraftianos, velhos deuses dormindo num crescendo que nos escancara esse medo inenarrável a esses deuses antigos esperando nossa atenção a eles para renascer !

Após a gravação em fevereiro de ’69 do que depois seria ‘Sanctuary’, Miles forma definitivamente os integrantes da banda que irá gravar com ele a partir do quinteto de antigamente, que eram Chick Corea no piano, Jack DeJohnette na bateria, Dave Holland no baixo e Wayne Shorter no saxo. A eles se somam Herbie Hancock e Joe Zawinul nos teclados, Lenny White na bateria e percussão, Don Alias e Jumma Santos nas congas, John McLaughlin na guitarra e Bennie Maupin no clarinete.

Isso mesmo: duas congas, duas baterias, dois baixos, dois pianos elétricos (Herbie Hancock se reveza com Chick Corea no lado esquerdo, e Joe Zawinul fica no lado direito). Essa é a base dupla junto com os quais os ventos (clarinete, trompete e vários tipos de saxs) irão improvisar juntos (e imagine gravar tudo isso em 8 canais!).

Eles gravam em tres sessões entre 21 e 23 de agosto de 1969 o álbum que será publicado somente em março de 1970. “Bitches Brew” foi publicado com um álbum duplo em vinil.

A apresentação do disco é a faixa “Pharaoh’s Dance” de Joe Zawinul e leva todo o lado A do primeiro disco, cujo lado “B” é a música título da obra, “Bitches Brew“. “Pharaoh’s Dance” partiu de uma idéia de Zawinul e é creditada a ele, mas as sugestões de Miles para os músicos e as edições posteriores junto a Teo Macero, produtor de Miles Davis, transformaram totalmente a música em termos de tema principal, e forte nas suas nuances rítmicas e propostas musicais.

Aparentemente Miles já tinha a idéia de destruir completamente a melodia da música para deixá-la atonal e psicodélica para que os músicos pudessem dançar em cima dela como uma procissão de jovens bruxos sacrificando antigos deuses do jazz tradicional numa pira fantasmagórica, dançando no amanhecer do sol de uma fusão de um jazz com ritmos latinos, com pianos elétricos, congas, saxos encarregados do ritmo e com guitarras enlouquecidas criando espirais até o infinito.

Uma constante no álbum é que Dave Holland no baixo e Jack DeJohnette na bateria são os que levam a melodia e o sentido da música para algum lugar conhecido por humanos. O ritmo em “Spanish Key” é contagiante e convida o improviso e até um swing dançante.

Os outros instrumentos improvisam chegando em dimensões não conhecidas e voltam em ráfagas como metralhadoras esquecidas numa batalha antiga. É uma batalha onde todos são vencedores e onde o ritmo celebra o improviso fantasmagórico e bestial.

Segundo Teo Macero isso aconteceu nas gravações de todas as músicas. Jack DeJohnette, responsável pela percussão junto a Lenny White, disse sentir que as indicações de Miles faziam com que compreendesse sua intenção, mas não muito mais do que isso. John McLaughlin, num dos tres dias que duraram as sessões de gravação na Columbia Records, saindo da sala perguntou para Herbie Hancock “você tem idéia do que nós fizemos? O que nós fizemos?” e Hancock respondeu: “Bem-vindo às sessões de gravação de Miles Davis“.

Zawinul também estava descontente porque não tinha gostado das gravações e tinha falado isso diretamente a Miles Davis. Estavam na limousine de Miles, com um Zawinul carrancudo. “Não gosto, não gostei do que tocamos“.

Meses depois entrou novamente na gravadora, ouviu um som que lhe chamou a atenção e perguntou à secretária “Uau, que som é esse?” e a secretária respondeu “esse som é o senhor tocando com Miles ‘Bitches Brew‘”.

Zawinul percebeu depois que faltava a santa mão da edição, da combinação do que foi executado e da música que estava tocando na cabeça de Miles, do que os editores iam cortar e do que iam enfatizar. Zawinul iria ficar tão entusiasmado que muitas das sessões já na sua própria banda carregavam o mesmo sentimento, o mesmo brio.

O ponto central da obra é “Bitches Brew“, que toma todo o lado B do primeiro disco.

Para nos levar à tensão inicial só ouvimos uma nota no baixo repetidamente num ritmo onde parece pontuar somente os espaços vazios, e as deixas do trompete dizem tudo dessa rebeldia chocante, atonal e inesperada. O trompete vai nos guiar numa viagem psicodélica que o jazz jamais tinha mostrado, muito menos com essa força. Miles então constrói um crescendo a partir desses poucos espaços.

Os efeitos no trompete, os pianos elétricos de Corea e Zawinul sugerindo giros temáticos ao redor de si mesmos, os devaneios do saxo, todos praticamente girando em torno uns dos outros perseguindo sua identidade num crescendo construído ao redor da mesma variação tonal e que cai uma e outra vez na mesma tensão inicial, porém cada vez mais maduro, mais contundente, mas deixando um amargo sabor de ter sido levado até uma planície de sons plenos numa noite sem lua, e deixado lá para contemplar a maravilha de um fusion que estava nascendo do free jazz e do rock sinfônico e da psicodelia.

Um questionamento que a gente precisa fazer para entender este disco gira em torno do que seria uma música “agradável”. O caminho mais direto para agradar no sentido musical é deixá-lo confortável, que sinta o ritmo e se deixe levar, mas nessa época o rock estava deixando de ser só bonitinho e agradável, e estava se questionando. Se a arte veio também para nos questionar, Miles e seu grupo navegam pelo free jazz, que seria o extremo oposto ao agradável. Num extremo temos a possibilidade de fazer o pessoal se mexer, dançar, desfrutar da música, como é uma salsa, um mambo, a música latina como um todo, que se prestava muito muito a improvisos deliciosos, e do outro lado a bagagem de profissionais do jazz inspirados num novo tempo.

Mas como um budismo musical, o ‘caminho do meio’ foi o fusion, com muitas variações, e no caso de Bitches Brew a intenção toda foi a de juntar esses dois mundos. E com isso os integrantes ficaram inspirados por quase uma década em explorar esse vasto mundo entre os ritmos africanos, latinos e o mais puro jazz.

Bitches Brew” inspirou as interpretações do free jazz dos anos ’70, isso fica evidente nos solos das apresentações da música ao vivo onde Wayne Shorter persegue Keith Jarrett desesperadamente, ante um Miles Davis mais contemplativo. Ela usa ainda mais profundamente todos os músicos numas idas e vindas que mesmo com psicodelia à toda, é o mais puro jazz fusion num ímpeto, brio, tesão contagiante que fecha o primeiro disco e com isso sua proposta revolucionária.

As outras faixas como “Miles runs de voodoo room” são variações extremamente criativas aos temas de “Pharaoh’s Dance“, ou anti clímax do tema central como “Feio” onde além dos músicos já citados participa Airto Moreira fazendo a cuíca seguir o trompete de forma sensual e estranha, ficando ainda mais psicodélica do que o tema central. Esta foi a última música que irá compor o álbum duplo e foi gravado em janeiro de ’70. O disco será definitivamente lançado em março de 1970.

O álbum demorou para fazer sucesso mas depois foi uma referência para os ouvintes de tanto do jazz quanto do rock, e Miles saiu definitivamente do underground para o estrelato como mentor de um novo jazz. Virou um sucesso e foi assim que os integrantes da banda passaram a interpretá-las nas mais diversas formas, desde o free jazz até o fusion.

A maioria dos integrantes entendeu o recado e no restante da década formaram as maiores bandas do jazz fusion, que juntava os elementos do jazz, do rock latino e do rock mais sinfônico para gerar harmonias complexas e ritmos que preencheram o underground instrumental dos anos 70 :

  • Herbie Hancock, um dos mais jovens integrantes dessa super banda e que já era membro do quinteto/sexteto compartilhando o piano com Chick Corea, formou depois o lendário Headhunters caindo de cabeça no funk instrumental e levando o fusion a outro patamar. É claro que terá o crítico que irá dizer que aquilo não é jazz, é hip-hop, funk, soul, mas quem sou eu para criticar Hancock, que passeia até hoje entre todos esses estilos com garbo e elegância ?

 

  • Wayne Shorter e Joe Zawinul irão fundar juntos a banda mais bem conhecida de jazz fusion: Weather Report. A eles irá se juntar mais tarde uma lenda do jazz, um mestre do baixo que irá inspirar também muitos rockeiros: Jaco Pastorius. Zawinul era já um tecladista e compositor de jazz bem resolvido que emigrou para os EUA atrás da diversidade de sons latinos, afros, europeus, que tanto o fascinavam.  Wayne Shorter já era um saxofonista criativo mesmo jovem, e um amigo pessoal de Miles. Compartilhava com ele o gosto por solos curtos, e tinha várias composições que foram utilizadas como base em “Bitches Brew”. No Weather Report conseguiu desenvolver solos mais elegantes junto com uma base de ritmo latino -Alex Acuña, percussionista peruano, foi uma das grandes bases percussivas do Weather Report.

 

  • Chick Corea, que também junto com Stanley Clarke, Al Di Meola e outras feras irá formar umas das lendárias bandas de jazz fusion dos 70: Return to Forever, e que irá ganhar o Grammy de 1987 com MusicMagic. Corea já tinha uma forte formação clássica e o aprendizado com Davis vai ajudá-lo a voar nas composições. Return to Forever evoca tanto ritmos latinos quanto da Espanha, tem seus momentos mais rockeiros e seus momentos mais sinfônicos.

 

  • John McLaughlin que depois irá fundar junto com Jean-Luc Ponti a Mahavishnu Orchestra. O nome da banda deriva da devoção de vários dos integrantes ao guru Sri Chinmoy que recomendou incluir ‘Mahavishnu’, e também recomendou inclui ‘Narada’ ao Michael Walden, o percussionista. A ‘Mahavishnu Orchestra’ foi outra grande banda do jazz fusion com grande influência clássica e de longos e virtuosos improvisos. McLaughlin também homenageou Miles e o reverenciou com músicas magníficas.

 

Enquanto muitas bandas de jazz fusion foram se consolidando e enriquecendo seu repertório, Miles foi aos poucos sumindo e deixando novamente sua noiva mortal entrar pela porta dos fundos. Levou quase dez anos para se reerguer, brevemente, mas diversas doenças nunca mais o deixaram, e o levaram ao seu destino final na porta dos anos 90, embora o eco de suas criações seja imortal.

 

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