Caçando mortos


I

Perto da fenda espaço-temporal que se abre às quartas-feiras de madrugada na rua Cornélio Bouchard e conecta Hokkaido com uma parte podre do oeste de São Paulo, lá perto havia um prédio velho que tinha sido filial de um banco do norte. Mas estava fechado para reformas há muito tempo, não sei ao certo quanto. O banco protelava as reformas aguardando algum dinheiro cair do céu, era por isso que a horda morta e malcheirosa se escondia por lá.


Eu não queria caçá-los, mais bem eram a mania do Damião. Eu ia para estar com a sua irmã Débora. Ele de manhã nos avisava dos lugares onde iríamos. Bah, melhor dizer que me intimava dizendo algo como “hoje é na rua da Glória, depois da meia-noite. Não vai mijar nas calças, hein, pirralho ?”. Como se alguma vez tivesse dito que não ia.


Não sei exatamente como descobria os lugares. Eu o via na escola, depois da aula, sumido na biblioteca. Juntava livros tão inesperados como o “Racionalismo Cristão” (que é na verdade um pout-pourri espírita escrito no século vinte no Rio de Janeiro), a “Vida dos símios da América” ou “Matemática Financeira”. Ainda coçava o queixo fingindo que estava pensando, e sempre me pareceu que antes que dissesse “já sei” com aquele olhar de sabichão, na verdade conhecia a resposta e fazia um suspense barato para dar mais valor ao seu ridículo hobbie.


O primeiros encontros não deram em nada, e julguei que o Damião tinha algum desvio esquizóide. Débora dizia que não, e conversando enquanto Damião ia e vinha pelas ruas da Casa Verde, a minha atração por ela ficou muito maior. Mas o que me chocou foi o primeiro dia em que realmente vimos um morto vivo desses. Porque até lá o Damião era um esquisitão que eu acompanhava por ser um desocupado, mas agora, agora o tínhamos visto, se lamentando de suas coceiras, arrastando os pés, com aquele cheiro putrefato de carne mole e o olhar de vidro quebrado.

Damião não tinha piedade. O coiso já estava morto, dizia, piedade seria uma forma covarde de não assumir o perigo que representava. Os insultava enquanto lhes entregava um punhado de sal. Eles olhavam num misto de curiosidade e rara felicidade. Levavam à boca, a coisa queimava, seus olhos percebiam a traição, caíam no chão em mímicas inocentes soltando espuma, e derretiam de dentro para fora, tossindo e apagando os olhos de vez, como um carro sem bateria.

Damião nos assustava com a lei do silêncio. Em circunstância nenhuma poderíamos contar a ninguém o que fazíamos, pois havia uma sociedade secreta que não só os protegia, senão que nas suas conclusões malucas às  vezes os zombies eram a sua maligna criação. E aquela sociedade secreta teria com certeza simpatizantes na escola (ele até desconfiava de uma ou outra pessoa, dependendo do que lhe faziam ou de como o tratavam, e dadas as várias esquisitices, a lista era grande).


O pior mesmo era que se deleitava em fazer comentários velados sobre o assunto quando havia outras pessoas, usualmente na escola, o que completava seu ar sabichão com um toque de infantilidade. Quando lhe falavam que estava com cara de cansado sorria que nem retardado, e dizia algo idiota como “estivemos ocupados, não é, Leandro ?”. Se gabava do seu segredo quando estávamos em público, mas não gostava que falássemos nisso. Ele não percebia a tola distorção que faziam dos seus comentários, e eu o odiava também por isso.


Mas aí estávamos os tres de novo, nesse velho prédio quase no centro da cidade. Eu queria tentar definitivamente ficar mais próximo a Débora. Bom, tentava juntar coragem fazia quase um mes, mas desta noite não passaria.

 

II

E esta é a noite. Estou preparado.

 

Entramos pelo buraco deixado por um vidro quebrado, mal escondido por um tapume que já havia sido propaganda eleitoral. No térreo abandonado, uma pilha de entulho, estruminho de rato em pontos como as pedrinhas de João e Maria, o reflexo azul da luz da rua. Tres motos com escapamento aberto arrebentam meus tímpanos.

 

Damião aproveita para correr, e o seguimos com nossas bolsinhas de sal.


Débora na sua blusa de frio, de cócoras, esperando atrás de uma porta. Odeia os coisos, mas gosta de matá-los, se sente protegida. Eu, do outro lado da porta, cobrindo a Damião que entra confiante.  O reflexo da luz nos olhos de Débora.


– Escuta, não podemos outro dia só sair por aí ?

– Como assim ?

– Ah, sei lá, estou meio cansado. Tipo ir no cinema, tomar um choppinho.


Entre contrariada e curiosa:

 

– E o Damião, como é que fica ?

– Mas nunca acontece nada. Olha só, ele entrou na boa. Um dia só… o que você acha ?


Desvia os olhos.

– Cuidado, escuto alguém respirar.


E vai atrás do Damião.


– Cuidado, Damião !

– Ghhghhgjk…


Salva o Damião ? Ou foge de mim ? Alguns deles às vezes falam, e este diz algo como que nos esperavam, ou esperavam que um dia acontecesse isso. E depois toma o sal, o põe na boca, cai tossindo.


Damião já avança e Débora olha o lento ´pshhhh´ onde o coiso submerge e se desfaz.


– Você não me respondeu. -instigo ela novamente.


Não tira os olhos do coiso.


– Eu não sei, Leandro, me deixa pensar.

– Não.


Mais insistente. Mais perto. Tomo uma mão, a coloco no meu peito.

 

– É agora.


Retira a mão, sorri.


– Agora não. Vamos atrás do Damião.


“Ela disse agora não, isso significa ´depois sim´ !”


Então fico admirando seu cabelo cheio e ondulado, recolhido delicadamente nas costas. Mas ela se vira:

– Leandro, eu prefiro que a gente continue com Damião.

 

Paro e penso. Barganha.


– Se for não, não preciso vir mais aqui. Estou cansado. Estes coisos são inofensivos e não vou ficar mais correndo atrás deles.


– É verdade, eles são mais inofensivos do que você, ou Damião.

– Isso é um não ? Você prefere que não venha mais ?

– Acho que sim.


E some do outro lado da porta. Fico lá, já do lado de uma pilha
efervescente do barro cinzento.



Meu coração dispara e tenho vontade real de chutar a coisa toda. Mas
uma pena imensa me invade, uma pena de mim mesmo que se mistura com o olhar do coiso que fica perto de mim.

 



– Eu – diz – também sei o que é isso. Eles simplesmente nos fazer
dançar na sua maldita frigideira.

Olho para ele. Automaticamente tiro um pouco de sal da sacolinha e
advirto:


– Então você sabe o que precisa fazer ?


– Todos sabemos, mas Damião não percebe o nosso sacrificio, nunca vai
entender.

Sim, o cheiro é desagradável, mas o abraço é sincero. Batemos um nas
costas do outro; foda não conseguir deixar de soltar uma lágrima por mim, e uma por ele.


Passo o punhado e ele a recebe sorrindo, curioso.

 

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