#04: Evita- transcrição do episódio

O século vinte começa tenso e conflitante no sul do sul do sul do mundo.

Após um longo tempo de domínio pelos conservadores, uma pressão constante da classe média argentina agora força o governo a estabelecer as regras para a primeira eleição presidencial pelo voto secreto.

Argentina seguia uma tendência mundial das democracias emergentes do século tentando varrer para o tapete os anos de governos conservadores que fraudavam ou compravam as eleições. O país começava a se enxergar como nação dentro de um crescimento econômico dado por uma Europa consumida por uma guerra terrível, incapaz de prover as máquinas das recentes indústrias, faminta pelos alimentos que América do Sul lhes dava, e ainda exportando trabalhadores que fugiam do caos da Grande Guerra. Europa sem querer gerou o cenário que empurrou o continente sul americano para a modernidade. Mas a diferença social era enorme e as velhas feridas de injustiças passadas ainda estavam abertas, e ainda ia jorrar mais sangue.

Os conservadores acharam que ganhariam mais uma, mas em 1916 Hipólito Yrigoyen, da Unión Cívica Radical, é eleito o primeiro presidente pelo sufrágio secreto, obrigatório e universal.

Universal… ? Não mesmo! Só os homens votavam. Era chamada de universal porque não votavam só alguns privilegiados e sim todos os habitantes… do sexo masculino.

Porém Yrigoyen conversa com os sindicatos ao invés de mandar a polícia bater neles nas greves, como era praxe até então, e uma nova aliança se inicia. Os trabalhadores já mais organizados e que queriam ver também os frutos dessa prosperidade, passam por primeira vez a enxergar o governo de igual para igual e não de baixo para cima.

Infelizmente essa aliança não dura muito tempo: os grupos socialistas são mal vistos no mundo todo depois da revolução russa, são perseguidos ferozmente, e os trabalhadores que organizam greves sofrem retaliações brutais. Somente a Semana Trágica cobra centenas de mortos além de ser o começo do fim do novo governo.

Para ter um contexto do conflito que ocorreu na Semana Trágica, ele começa no início de 1919 numa empresa metalúrgica no centro de Buenos Aires, numa greve que já durava um mes e pedia pautas revolucionárias como descanso no domingo e pagamento de horas extras. Não entraram na pauta práticas corriqueiras como trabalho infantil.

Os donos das indústrias se negam a ceder, e os manifestantes são reprimidos pela polícia, acionada por eles ante a indecisão do governo em intervir ou não. Quanto pior a repressão, mais trabalhadores protestam, mais tumulto, maior a repressão policial numa espiral de violência onde as mortes se alastram e a cidade vira um caos, entra em intervenção ante manifestantes cada vez mais numerosos e ataques da polícia além de ataques anônimos de grupos como a Liga Patriótica.

A Liga Patriótica era um grupo de extrema direita que se opunha à chegada de imigrantes, considerados a escória da Europa, elementos indesejados que iriam tirar o lugar dos ‘criollos’, os nascidos no país na emergente industrialização. Era composta por paramilitares e organizados por jovens da alta sociedade da época que se mascaravam para cometer atos violentos como invasões, mortes de líderes gremiais ou incêndios em barracos ocupados por imigrantes.

Mesmo intensamente reprimida, as manifestações conseguem suas reclamações, mas Yrigoyen não terá mais um governo de paz. A industrialização da jovem república já cobra suas primeiras vítimas.

Filha bastarda de um membro do partido conservador, María Eva Duarte nasce em 1919 numa fazenda na região de Los Toldos, no meio do nada da pampa argentina. Mas a jovem Evita, inquieta, criativa e forçada a viver nas sombras de ser filha bastarda, sai de casa onde morava com sua mãe e seus irmãos e vai tentar uma vida melhor na cidade grande, Buenos Aires.

Mantém trabalhos improvisados para sustentar uma carreira artística, e aos poucos entra no mundo do rádio teatro. Passa fome por longos meses. Quando não é ignorada, é maltratada por colegas, como toda pequena menina do interior, mas mesmo sem estúdios prévios, começa a conseguir alguns papéis. Estreia no teatro em “La señora de Perez”, mas nos anos 30 o rádio já era o principal meio de comunicação, deixando o jornal para atrás e invadindo os lares de todo o mundo. Ela embarca nessa onda e aos poucos sua fama vai aumentando junto com as radionovelas que invadem todas as casas, junto com outras modalidades que o rádio vai inaugurar, como os programas de palco.

Yrigoyen já tinha mandado matar opositores, realizado intervenção em províncias do interior e com isso perde o apoio da Igreja Católica e finalmente grupos das forças armadas conspiram contra ele.

Os contínuos fracassos econômicos somados à crise mundial de 29 desestabilizam de vez o governo, e, numa prática que vai ser cada vez mais corriqueira, Hipólito Yrigoyen sofre um golpe de estado no ano seguinte.

Assim começou um modelo que a Argentina ia repetir o resto do século: um golpe apoiado pelos conservadores, que na crise econômica perde o apoio popular, eleições ou golpe populista, que quando perde apoio da igreja e/ou das forças armadas, sofre um golpe dos conservadores, para começar o ciclo novamente.

Após a queda de Yrigoyen opositores são perseguidos, em geral radicais e socialistas, (Yrigoyen vai para a prisão na ilha Martín García, no meio do Rio da Prata) quando as urnas apontam uma direção contrária ao seu desejo, as anula e proclama outro vencedor, manipula ou congela preços, tenta controlar as diversas atividades econômicas de uma moeda desprestigiada no mercado mundial. Foi um governo elitista tão odiado que entrou para a estória pelo nome de ‘A década infame’.

Os governos mundiais atingidos pela crise adotam políticas conservacionistas, fecham seus mercados e o sul do sul, dependente da exportação de carne e grãos, vê seus clientes fecharem suas portas, barganhar para descer os preços, exigir mais controle nos frigoríficos, o que leva à falência dos produtores e o desemprego dispara.

Desemprego alto, moeda desvalorizada, baixa auto estima do país: o adubo perfeito para que nasçam os salvadores da pátria de corte nacionalista, e ainda a época era de fascistas.

Em 1943 um novo golpe de estado por um novo comando militar põe fim no regime de supremacia conservadora e começa uma nova onda, agora populista. Entre os militares do novo regime se destaca um jovem coronel muito amado pela tropa chamado Juan Domingo Perón.

No novo regime, Perón assume o Departamento do Trabalho (uma pasta menor naquele então) e pelo fato de ter contato com os sindicatos e por apoiar mudanças para melhorar as condições dos trabalhadores rurais e depois também da indústria, essa sub pasta pouco importante passa a ter o nível de importância de Ministério, e sua atuação cada vez mais popular faz ele chegar até a vice-presidência.

Um terrível terremoto deixa em ruínas a cidade de San Juan, capital da província de San Juan, aos pés da cordilheira dos Andes. As estatísticas contam entre 7 a 10 mil mortos, e até 250 mil feridos e afetados, uma das piores catástrofes naturais do país. São organizadas coletas de roupas e alimentos, e na principal delas a mini estrela do rádio Eva Duarte conhece um dos principais representantes do governo organizadores da coleta: Perón.

Na época Evita era solteira e Perón era viúvo, sua anterior esposa tinha morrido de câncer de colo uterino em 38. Guarde essa informação, caro ouvinte.

Eva namorada de Perón passa a fazer parte de filmes e a ter um lugar de destaque na rádio que tempo depois será controlada pelo governo: radio Belgrano. As conquistas do governo são anunciadas no cinema antes dos filmes e nos intervalos comerciais das radionovelas. É o casamento dos sonhos entre uma comunicadora popular e um governo ávido pela propaganda para se identificar com o seu povo.

Mas a fama de Perón provoca a inveja dos seus opositores no governo, apoiados pelos ruralistas que viam nele um incitador de massas. Os opositores se organizam e num complô conseguem que Perón renuncie aos seus cargos para ser preso na ilha Martín García.

É um tiro no pé. Porque poucos dias depois, no famoso 17 de outubro de 1945 conhecido hoje como Dia da Lealdade, os sindicatos organizam uma manifestação de 300 mil a meio milhão de pessoas, talvez a maior manifestação popular do país, pedindo a soltura de Perón. Ficam gritando seu nome desde a praça em frente ao balcão onde estão os ministros e Farrel, o presidente militar da época, até Perón sair no balcão e garantir que fica até as eleições. O governo encurralado organiza as eleições, Perón casa com Evita e ganha as eleições no ano seguinte ante o olhar raivoso e estupefato dos conservadores.

Até esse momento a primeira-dama era sinônimo de uma velha e respeitada senhora da alta sociedade, casada com seu velho e poderoso homem forte do partido conservador. Sua função se limitava a ficar como figurante nas fotos e liderar organizações beneficentes. Susanita, personagem da tirinha ‘Mafalda’, de Quino, descreveria a beneficência daquela época:

“Fazendo festas com peru, leitão e tudo isso para arrecadar farinha, macarrão e essas porcarias que os pobres comem”.

Mas Evita primeira-dama é diferente, se apropria da fundação; ainda por cima se envolve como nenhuma outra fazendo pedidos diretos ao General, visitando favelas, entregando cestas de final de ano, e revoluciona totalmente a fundação tradicionalmente mantida pela primeira-dama, que é dissolvida e anos depois chamada ‘Fundación Eva Perón’, a auto-promoção ideal para preencher sua vontade política.

A atriz, aproveitadora, a ‘puta’ ainda por cima trocava o nome da fundação pelo seu ! É claro que os oligarcas iam odiá-la !

É assim que Evita reinventa o conceito de primeira-dama para sempre no mundo.

A fundação é convertida numa central de arrecadação que recebe desde doações de pessoas influentes que querem participar do novo círculo do poder, além de parte do imposto de casinos, multas sobre impostos devidos por donos de grandes fortunas e de empresas, e com o dinheiro inaugura ambientes esportivos populares, casas de veraneio, lares para mulheres solteiras se alojarem na cidade (inclusive com creches porque muitas eram mães solteiras), escolas para mulheres, transformando seus locais de atendimento em distribuição de benefícios e também de QG informal dos partidários da “Señora” (Evita).

Assim nasce o mito Evita. Para a alta sociedade ela era fútil e desonesta, competia em elegância, vestia Dior e aparecia na Time, mas para a classe trabalhadora era uma caridosa benfeitora, a mão direita de Perón, que trabalhava em horários exaustivos recebendo milhares de pessoas, principalmente mulheres para ajudar com alojamento, medicamentos, roupas, e como muitos queriam agradar o novo governo é claro que Evita era o elo de um caminho de duas vias, um ganha-ganha populista porém que resolvia de fato problemas práticos.

Evita soube também aproveitar um momento em que Perón não era bem visto lá fora, e desfilou na Europa como o seu representante, inclusive ganhando a Grão Cruz da Ordem de Isabel da Espanha pela sua obra com os mais necessitados, além da doação milionária de grãos numa época em que Espanha passava fome. Também foi para Portugal, Itália e França e recebida pelo papa Pio XII.

Evita era tudo isso: bonita, inteligente, que colocava a elite no bolso, instrumento político para agradar as massas. Diva, deusa, ‘Chefa Espiritual da Nação’. Sempre solícita com seus ‘grasitas’, ‘descamisados’. Como um lugar de fala, antes sequer de existir esse conceito, tratava as pessoas comuns com carinho usando os termos que os engomadinhos usavam com desprezo. Ela tinha passado fome de verdade, tinha nascido à margem e por isso tinha todo o direito de chamá-los de ‘mis grasitas’, ‘meus breguinhas’. Porque era um deles, uma delas, até por isso muitas das ações eram direcionadas principalmente para as mulheres.

Evita também não era bem vista por alguns dos conselheiros peronistas porque viam nela uma imagem que começava a ser maior que o próprio líder. Os discursos eram feitos para exaltar Perón, mas as pessoas adoravam ouvir os discursos pela voz de Evita. Ela passou também a representar a idolatria ao grande líder, ao mesmo tempo que lhe fazia sombra.

Mesmo na eleição, uma das pautas da chapa de Perón-Quijano foi o voto feminino, mas sem dúvida foi Evita quem fez o maior número de discursos, os mais inflamados, quem mais pressão fez no Congresso. Levou um ano para ser negociada e finalmente votada, mas foi uma conquista que não teria sido possível sem ela já que o congresso tinha muito voto conservador.

Com a força das mulheres ao seu favor, Evita funda o Partido Peronista Feminino para organizar a primeira geração de mulheres parlamentares, e para dar voz às futuras votantes e que já estavam presentes em passeatas e mobilizações.

Embora as conquistas da era peronista sejam inegáveis, não deixavam de ser parte de um modelo assistencialista que precisava passar a um patamar de igualdade que nunca saiu do paternalismo e da adoração ao líder supremo.

As crianças aprendiam a ler exaltando Perón e Evita em livros didáticos. O rádio começava todas as manhãs com exaltações ao líder, e até hoje quando há um dia sem nuvens (o que no Brasil é chamado de ‘céu de brigadeiro’) é chamado de ‘um dia peronista’ (claro que hoje é com sarcasmo).

Sabemos que estamos na frente de um homem excepcional, sabemos que estamos na frente do líder dos trabalhadores, do líder da Pátria, porque Perón é a Pátria e quem não está com a Pátria é um traidor.

Como todo populismo de recorte fascista, o peronismo não aceitava vozes contrárias, seja dos conservadores por perderem seus privilégios ou verem trabalhadores descansando no domingo (ooooohhh!), seja das vozes mais independentes, dos socialistas, que entendiam suas ações como populismo barato e que pediam por mais igualdade e menos idolatria. Muitos colocaram o escudo peronista na lapela só para agradar um governo intolerante com a oposição, os que não o fizeram foram perseguidos ou exilados, em geral identificados como traidores à pátria, como fazem os governos totalitários para manchar a trajetória de quem não os apóia.

O HPV, ou Vírus do Papiloma Humano, é uma infecção de transmissão sexual que provoca desde papilomas, pequenas verrugas na vagina e útero, até o câncer de colo de útero nas suas cepas mais malignas.

Enquanto isso Evita se auto impunha dias exaustivos de trabalho, porém começaram a acontecer desmaios e idas urgentes ao médico. Em uma delas retirou o apêndice, mas aparentemente o médico viu mais coisas. E aqui a estória toma rumos difíceis de narrar. O que sabemos é que os médicos acabam por diagnosticar um câncer de colo do útero. Quando souberam exatamente e quando a situação foi comunicada a Evita vai depender de quem narra os fatos. Aparentemente esconderam o verdadeiro diagnóstico por meses, ou ela escondeu isso do resto do país, ou de comum acordo o partido escondeu tudo isso para se apropriar da narrativa.

Quero comunicar ao povo argentino a minha decisão irrevogável e definitiva de renunciar à honra com a qual os trabalhadores e o povo de minha pátria quiseram me honrar.

Para as eleições de 1951, Evita queria ser vice da chapa de Perón. Era muito apoiada pelas pessoas da rua, as mulheres, a CGT e os dirigentes sindicais. Estar na chapa de Perón seria a justa coroação de sua meteórica carreira política. Mas depois de muitas idas e vindas ela rejeitou essa nomeação, ante a frustração de toda uma nação. E pouco tempo depois a doença de Evita foi ‘un secreto a voces’, uma verdade que ninguém falava mas todos sabiam.

Foi a primeira eleição com voto feminino, e Evita votou desde o leito do hospital. Perón teve uma eleição massiva, mas Evita cada vez aparece menos nos eventos oficiais e vai aos poucos definhando ante o olhar de todos, como na cerimônia de posse onde mal podia se manter em pé.

Evita passa para a eternidade em 26 de julio de 52 e recebe o maior funeral que o país já teve. Tres anos depois de sua morte, antes de terminar o seu mandato, Perón é derrocado, exilado, o peronismo banido e se torna uma palavra proibida. Temendo revoltas, o corpo de Evita já embalsamado sofre numa saga nos quais seus inimigos a escondem para impedir que seja adorado. Hoje repousa no maior e mais luxuoso cemitério da cidade que a viu brilhar, fugaz, e morrer com 33 anos de idade.

Eu acredito ter feito tudo o que esteve nas minhas mãos para cumprir com o meu voto e minha dívida. Não tinha então, nem tenho agora, mais do que uma só ambição. Uma só grande ambição pessoal: de que quando seja escrito este capítulo maravilhoso da Historia que com certeza será dedicado a Perón, falem de mim, de que houve do lado de Perón uma mulher que se dedicou a levar ao presidente as esperanças do povo, que Perón transformava em maravilhosas realidades, e que a essa mulher o povo chamava carinhosamente Evita, somente isso, Evita.

Por Outro Lado on EmailPor Outro Lado on GithubPor Outro Lado on GooglePor Outro Lado on InstagramPor Outro Lado on Twitter
Por Outro Lado
Um podcast sobre biografias, papos alternativos e afins