Vexame Monumental

Sábado 24 de novembro de 2018, começo de uma bela tarde de sol, céu sem nuvens no centro de Buenos Aires: o ônibus que leva os jogadores do Boca Juniors para a final da Copa Libertadores encara torcedores do seu arqui-rival River Plate na última curva antes de entrar na reta final para chegar no estádio deles, o Monumental de Núñez.

É uma tragédia anunciada: os oito ou dez seguranças de moto nada podem fazer contra os torcedores que gritam, arremessam latas, garrafas de água, pedras, e o ônibus é seriamente atingido, machucando vários dos atletas do Boca.

Os torcedores que esperavam um espetáculo, que compraram entradas e queriam ver a grande final depois do empate por 2 a 2 no campo do Boca Juniors, na Bombonera, foram informados depois de muita espera que o jogo não aconteceria nesse dia e sim no dia seguinte, no domingo.

Eles, esperançosos, voltaram a lotar o estádio no domingo, ficar na fila, no sol, deixar o carro vários quarteirões longe do estádio, pagar água a 100 pesos (aproximadamente 3 dólares a garrafinha de 75ml), para novamente engolir a frustração e voltar para casa porque o jogo novamente não aconteceu.

Entre os jogadores atingidos está nada mais e nada menos do que o capitão do time xeneixe, Pablo Pérez, com uma úlcera na córnea do olho esquerdo, pelo laudo numa clínica particular próxima ao estádio. Isso além de jogadores atingidos pelo gás pimenta, com vómitos, alguns com arranhões nas pernas. E quem viu os vídeos sabe que saiu barato, poderia ter sido muito pior.

E desde as profundezas do inferno até dos mares gelados do polo norte apareceram vídeos e fotos do ocorrido, choveram teorias do que aconteceu, estava acontecendo e aconteceria com os dois times. Nadando nesse mar de pipocas e cervejas estocadas junto com incertezas do futuro do país, do futebol e tudo o mais, os torcedores, os jornais, tuiters, youtubers, craques, os jogadores e o mundo inteiro aguardavam os representantes da Conmebol e dos dois times para deliberar e chegar num acordo que possa agradar a todos. O que é, caros amigos, impossível.

O vexame já aconteceu: milhares de jornalistas viajaram para o sul do sul do sul do mundo para constatar o óbvio: continua sendo um país de inadaptados ao jogo limpo. A nossa personalidade de mafioso domina nossa persona antes que nosso lado criativo possa se mostrar nessa esquizofrênica personalidade fragmentada que é Argentina, como toda América Latina é também um pouco.

Conmebol pressionou até a exaustão para que houvesse jogo, mas não havia ambiente, situação nem condições físicas ou psicológicas de que isso acontecesse. Vai tentar convencer as partes a jogar numa data em dezembro. De 2018. Vamos acreditar.

River Plate lamentou o ocorrido, mas queria jogar, desde que o adversário estivesse em condições. Ainda quer jogar, e com o estádio ao seu favor, já que o primeiro jogo teve torcida boquense em peso.

Boca Juniors tentou adiar o máximo que pode, para agradar a Conmebol é claro, mas depois decidiu não mais jogar no gramado, trocar a estratégia do 4-4-2 pela estratégia dos advogados e pleitear os pontos da partida, e conseqüentemente a copa.

A Cidade de Buenos Aires expulsou o responsável da Secretaria da Segurança, Martín Ocampo. Ele já foi ligado ao atual dirigente do Boca, Angelici, o que tinha deixado um raro cheiro boquense no ar. Mas o presidente argentino, Macri, também foi ligado ao clube, isso pode não significar tanta coisa. Masem todo caso a cidade já escolheu e guilhotinou o seu culpado.

Agora o jogo continua na papelada, entre gravatas exaltadas discutindo cláusulas e incisos. Os dribles viraram falácias e os chutes serão dados por canetas.

Que vença a gravata melhor apresentada. E a pipoca e a cerveja ficará para o Natal.

 

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Por Outro Lado
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